sexta-feira, 6 de janeiro de 2017


Admiradora do meu hábito de leitura, minha esposa, com a alma sapiencial de mãe, tivera curiosidade em saber como me despertou o desejo por esta prática, pois já preocupava-se em ajudar nosso filho e filha neste caminho.
Na verdade, não consigo lembrar-me muito bem senão de alguns livros que ficaram significativamente cativos na minha memória. Não sei quando exatamente e quantas vezes os lí, mas sei que era o tempo da adolescência. Foi “Raul da Ferrugem Azul” um dos livros que ficou entranhado na minha memória e no coração. Talvez, devido à história cativante; talvez, os personagens ou, ainda, as lições ditas de um jeito tão profundo sem o uso de moralismos que não educam de um jeito libertador. Acredito que foi tudo isto e outras coisas que fizeram o livro ser especial para mim e outros diversos/as leitores/as. Quando penso que o processo de descobertas de Raul é tão atual, parabenizo a autora Ana Maria Machado que tivera Já em 1979 tamanha lucidez em escrever uma história que trata de problemas sociais que afetam, principalmente, os grupos marginalizados como os negros, os idosos vitimas de maus tratos, estudantes vitimas de violências diversas, etc. Contudo, considero que a maior lição do livro consiste em nos indicar a capacidade de sairmos da passividade e defender os mais injustiçados. Isto é uma questão de consciência solidaria, de valor ético do cuidado, de responsabilidade á vida, onde, ela, encontra-se ameaçada. Estas lições aparecem a partir do destrinchar das manchas que Raul, o protagonista da história, de repente, ver surgindo em seu corpo toda vez que poderia tomar partido frente a algum ato de injustiça, mas não faz. Todavia, ele não se inclina á “covardia” posto que busca solucionar o seu problema. Embora, a motivação do caminho der-se em encontrar respostas para sí mesmo, Raul faz interessantes descobertas que tratam de questões coletivas relevantes. O percurso dentro da realidade social, quando feito com sensibilidade, criticidade e curiosidade, sem estarmos vestidos de verdades “absulutas”, aprofunda a nossa humanidade e criatividade, pois chegamos “dentro” de nós mesmos, confrontamos com nossos bloqueios internos, mergulhamos em nossos próprios medos ao ponto de dizermos que “basta”. Quem começa a dar pista do caminho é uma empregada da casa de Raul, aquela em que para a burguesia deve apenas obedecer por pertencer a uma “escala inferior” da sociedade. Ainda para incomodar aos grandes, Tina aponta preto-velho cuja relação volta-se as religiões afro. Adiante, só poderia ser mais uma mulher, aceita como frágil diante do poderio masculino, a indicar a verdadeira força que vem de dentro e não dos músculos. O retorno a sua residência traz com Raul a bela lição de que não podemos nos omitir frente às oportunidades de nos posicionarmos em defesa da justiça, mesmo, seja nos atos mais simples do dia-a-dia. Por fim, como Raul, somente a pessoas em sua individualidade é capaz de ver suas próprias manchas crescendo quando poderia fazer algo para melhorar o mundo e não faz. Contudo, a reversão destas manchas dá-se desde que começarmos a sair da inércia.



Sobre o autor
Ernande Arcanjo é Assistente Social, especializando em Gestão Estratégica na Área Social e milita em movimentos sociais.
ernandearcanjo.blogspot.com.br

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