segunda-feira, 3 de novembro de 2014


"Você prefere Deus em sua vida ou sua vida em Deus?"


Há poucos dias uma senhora me fez uma indagação, quando, ela, ao desejar algo intensamente viu, de repente, acontecer o almejado: "Você diz que é Deus ou não é?". Ao ouvir a pergunta senti um desconforto, mas busquei respondê-la conforme o meu entendimento.
"Você prefere Deus em sua vida ou sua vida em Deus?". Comecei fazendo esta pergunta! Ela, porém, sentiu dificuldade de responder-me por não ter compreendido, mas não demorei explicar. O primeiro ponto (Deus em sua vida) alude a postura no que, comumente, as pessoas costumam fazer: Pôr Deus em suas vidas conforme seus interesses pessoas e, ou, de interesse de algum grupo exclusivista. Assim, a Fé estaria a Serviço do que designamos.
As religiões costumam fazer isto, manipulam o transcendente conforme suas verdades fechadas. Ainda, neste sentido, o Divino é criado para satisfazer as vontades individuais e não do interesse da maioria. Ele é usado para condenar e abençoar, para amar e odiar. Nesta lógica, temos consequentemente um exemplo: Se estou bem, logo agradei ou estou agradando a Deus; se estou mal, é porque assumo seus preceitos. Acontece que devido e essa experiência religiosa, justificamos os piores males como a intolerância, guerras e outras violências.
Sobre o segundo ponto (Nossas vidas em Deus) é bem diferente, uma vez que, aqui, evitamos controlar o transcendente. Deixamos que Deus seja Deus, como diz dom Pedro Casaldáliga. Esta é uma experiência diferente de fé, porque o sagrado não é manipulado. Neste processo de amadurecimento na fé rompemos com uma ética norteada pela moralidade individual ou simplesmente a dogmas excludentes para assumirmos uma ética dotada de virtude sob os preceitos do bem-comum.
Mas, quanto à resposta mais objetiva depois que expliquei tudo isto aquela Senhora foi dizê-la que, sim, o fato dela ter conseguido realizar o desejo de súbito não deixa de ser Deus, mas ai seria sua experiência de fé. Até mesmo numa formiga que se move podemos sentir a presença de Deus. Uma cobra, para uma cultura poderá significar uma presença divina; para outra, a proximidade do mal. Quando realizamos algum bem, mas também quando fazemos até um mal a outrem poderemos sentir deus. Bem, Logo, acrescentamos que devemos como, ainda, diz o Bispo da libertação Pedro Casaldáliga "Sempre estar corrigindo o nosso Deus".
Não que seja errado algumas experiências individuais de fé, mas que podemos melhorar. Posso ajudar a velhinha a atravessar a rua para conseguir algo de Deus ou porque se eu não fizer Deus vai me castigar. Tudo isto é de interesse egoísta. Também, posso ajudar porque simplesmente sei que a velhinha necessita de ajudar e que eu posso fazer isto.
Acredito que o grande desafio da religião cristã (Falo cristã, porque é que eu tenho experiência) é a superação de uma prática de fé neoliberal instalada no seio das igrejas sob o viés de uma sociedade onde as injustiças sociais são fatalistas e, sendo, que "cada um por si e Deus por todos" leva os indivíduos a uma leitura da realidade fragmentada e sem tomar responsabilidade com o todo, quando, de fato, as estruturas geradoras de males tendem a culpabilizar os indivíduos por si mesmos. A fé, neste sentido, é posta como condição de superação dos desajustes dentro da ordem ou, mesmo, na superação frente aos desafios impostos pelo próprio sistema capitalista.




Sobre o autor
Ernande Arcanjo é estudante de Serviço Social, assessor da Pastoral da Juventude, Militante na Consulta Popular e movimento estudantil

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